Enfim, um segundo cachorro

É uma novela essa história de cachorro em minha vida.

Saindo para comprar um remédio em um Pet Shop para a minha buldogue francês, recém-operada da castração, avistamos um lindo filhote de Spitz Alemão e foi amor à primeira vista. Contra (quase) todos os meus princípios de compra responsável de um cachorro, compramos este! Num PetShop e não de um criador sério. Volto a falar mais sobre este ponto ao final.

Quando ainda pensava em ter um segundo,  e mesmo um primeiro cachorro, já tinha lido muito sobre a raça, entrado em contato com alguns canis e conversado com alguns donos de Spitz. E por que não escolhi ele em primeiro lugar? Conforme abordei neste post (sobre as características desejáveis no primeiro cachorro), ao Spitz Alemão faltava o seguinte requisito: aparência robusta. É um características importante para quem tem crianças pequenas e que, acidentalmente ou por maneirismos próprios de crianças, podem machucar os cães. Além disso, meu marido não queria cachorrinhos de madame.

A fragilidade do Spitz associado ao fato de eu ter uma criança com menos de 5 anos na época e sua fama de cachorro de madame, fez com que essa opção fosse descartada repetidas vezes, embora, intimamente, eu nutrisse uma vontade grande de ter um. Ocorre que a vida não é sempre um roteiro programado. Felizmente.

Contra todas essas racionalizações e inclusive de que não era o momento de ter um segundo cachorro, acabamos comprando um. Cedemos àquelas emoções efêmeras que somos orientados a não ceder quando estamos diante de um filhote: senti-lo em nosso colo, balançando o rabinho, esperto, cheiroso e bonito. Também pegamos no colo um daschund, mas ele estava quieto demais. E francamente eu queria um peludinho!

Confrontarei todas as características negativas que encontrei no Buldogue Francês com o Spitz Alemão para tentar explicar a satisfação que sinto agora. Antes de mais nada, quero esclarecer que, apesar de tudo, continuo amando a minha buldogue. O Spitz Alemão:


1. Completou hoje 2 meses e já sabe fazer xixi e cocô no lugar certo. Meu Deus! Isso não tem preço! E faz uma média de apenas 2 cocôs por dia, em uma excelente consistência. Também já está aprendendo os comandos sentar e deitar.

2. Não come o próprio cocô. Simplesmente vai no tapete, faz o cocô e vai se embora! É literalmente um sonho. De quebra, aparentemente a chegada dele está fazendo a minha buldogue parar de comer o cocô dela.

3. Considero um cachorro extremamente limpo. 

4. Tem uma tendência a morder, porém não a destruir as coisas nessa fase de filhote. Sua mordida é tão delicada que não estraga nada! Os tapetes higiênicos estão intactos e não me lembram nada aquela difícil fase com a minha buldogue que destruía um todo santo dia. 

5. Não tem aquele cheirinho típico de cachorro. Tem um outro cheirinho e, quando toma banho, fica um cheiro gostoso por alguns dias (só não fica mais porque brinca muito com a buldogue).

6. Não solta puns fedidos.

7. Não ronca nem late. Extremamente silencioso. Porém a minha buldogue também não ronca alto e seu barulhinho até me agrada (não sou tão fresca assim). Dei sorte porque alguns Spitz latem bastante e seu latido é estridente e irritante. 

8. Ainda não passeei para saber como se comporta. Mas tenho certeza que será um passeio bem mais objetivo do que é com a minha buldogue. 

9. Não come tudo o que vê pelo caminho, mas saberei melhor quando começar a passear. Só de não ter essa preocupação extra, já acho tudo de bom.

10. Como é filhote, não tem um hálito ruim e acredito que só terá se tiver tártaro no dente.

11. Não lambe demais. Isso significa que posso chegar o meu rosto perto dele sem medo de receber uma lambida na boca ou nariz.

12. É um cachorro de colo. O que é ótimo porque eu gosto de abraçá-lo.

13. Embora seja ativo, aparenta ter menos energia que o buldogue, cujos níveis de energia devem se reduzir bastante a partir do 2º ano de vida.

Agora vou mencionar as qualidades que desejava e ver em quais delas o Spitz Alemão se encaixa:


a) Tem cara de cachorro de verdade.

b) Tem pelos macios. 

c) Não tem o cheiro típico de cachorro. 

d) É obediente? Tem facilidade para aprender, o que facilita muito a adaptação e convivência.

e) É bonito!

f) É leal aos donos, meio distante com estranhos.

Bingo! 

Quanto à compra no PetShop. Eu já estava bem ciente da realidade de criadores de cachorro fundo de quintal (o que sou totalmente contra) e que o correto é procurar comprar de um criador sério. 

Vamos falar francamente. O que é um criador sério? Tem algum órgão governamental ou mesmo instituição sem fins lucrativos fiscalizando esse tipo de atividade no Brasil, quer dizer, a criação de cães? A resposta é um categórico não. O Kennel Club não tem essa função e se limita, na prática, a registrar o nascimento de cães de determinada raça e promover a classificação dos melhores criadores e cães de acordo com critérios discutíveis. Ser o primeiro lugar no ranking significa ter um programa de criação mais ético e responsável? Não necessariamente. Provavelmente significa apenas ter mais cachorrinhos nascendo.

Além disso, a minha cachorrinha já veio do canil com problema de coprofagia, porque desde o "Day One", ela já comia cocô. Creio que o criador, considerado um dos melhores da raça, escondeu isso de mim, deliberadamente. Afinal, ele precisa vender os filhotes.

Existem algumas poucas raças, que aparentam ter uma criação responsável pelas fotos e depoimentos dos donos. Alguns deixam conhecer o canil, o que é bom. Mas o que podemos conhecer do canil?

Na verdade, eu fiquei desanimada com essa realidade de criadores caninos. Eu simplesmente queria um filhote saudável, do ponto de vista físico e emocional, mas sem me desgastar muito, do tipo pegar um cachorro em outro estado ou recebê-lo por avião ou esperar em uma longa fila de espera. Ou, quando chegasse a nossa hora, ficar com o filhote que sobrou. 

Nós estávamos cansados. Meu marido estava esperando por um Terrier há quase dois anos. (Ou será que ainda está? Três cães seria demais!) Também entrei em fila de espera pelo Pastor de Shetland, raça que vale à pena aqui abrir um parêntese.

O Pastor de Shetland não apresenta o problema da fragilidade do Spitz, mas tem um tamanho maior do que eu gostaria, além de poder ter problemas com latidos (mais que o Spitz) e o com a timidez/medo, algo não relacionado ao Spitz. O Pastor de Shetland, apesar de não ser tão raro quando um certo Terrier, também não era tão disponível quanto o Spitz Alemão, hoje uma das raças mais vendidas, se não a mais vendida. 

No meio de todo esse balaio, dúvidas sobre ter um segundo cão, ceticismo em relação à criação de cães, listas de espera, quando vimos aquela bolinha peluda, bingo! Eu tomei uma decisão que havia sido fruto não de um planejamento, mas de uma conjunção rápida de pensamentos, que me levaram à conclusão de que eu estava fazendo a coisa certa. 

A verdade é que, no primeiro ano de vida, especialmente até os 10 meses, a minha buldogue francês me deu muito trabalho, muito mais do que eu, que já havia sido dona de cachorro em apartamento, poderia imaginar. E eu não consegui curtir nada, pois eu passava boa parte do tempo limpando xixi e cocô, limpando o cocô que ela comia e espalhava pelo chão, afastando objetos que ela tentava destruir (basicamente todos que via pela frente). 

Enfim, a minha buldogue francês me deu muito trabalho quando filhote! Eu lembro que quando viajei, 1 mês depois que ela chegou, aos dois meses de vida, senti um enorme alívio daquela trabalheira sem fim, apesar de procurar mentalizar que era uma fase que iria passar. Porém nunca passava. 

Cheguei a pagar mil reais para uma adestrador me ajudar a resolver especificamente o problema de xixi no lugar errado. Depois de aulas sobre alimentação natural, clicker, necessidades do cão, formas de ensinar, minha buldogue continuou com o mesmo problema e, ainda, com a sutil insinuação de que o problema era meu! Eu que não estava descendo nem dando atenção suficientes. Fiquei um mês descendo de 3 a 4x todo santo dia e nada adiantava! 


Alguns falam que os buldogues demoram a aprender a fazer xixi e cocô no lugar certo - e que é preciso ter paciência e persistência - porque não são cães inteligentes (ocupam a 58ª posição no ranking de inteligência canina elaborada pelo pesquisador Stanley Coren). Suspeito que, pelo menos em algumas vezes, a minha buldogue francês use isso como forma de protesto, a que eu ignoro solenemente para não reforçar o comportamento indesejado. 

Além disso, ensinei meu Shih Tzu, raça que em tese ocupa a 70ª posição no ranking de inteligência canina, a fazer as necessidades no local correto em apenas 2 semanas para nunca mais. Por conta disso, quando eu era dona do Shih Tzu, achava-me uma super dona, com jeito para adestramento. Com o Buldogue Francês, ao contrário, sinto-me frustrada e incompetente, o que me leva à pergunta: até que ponto o temperamento/personalidade do nosso cachorro faz com que nos sintamos competentes na tarefa de educar/criar? Quando o cachorro naturalmente obedece facilmente, acredito que nossa tendência é nos sentirmos donos mais capazes e confiantes, num círculo virtuoso. E o contrário também pode ser verdade.

Ter trazido o segundo cão para casa tem sido uma experiência gratificante e prazeirosa. Não está me dando nenhum trabalho e talvez eu tenha dado sorte com a escolha da raça e do cachorro em particular, que parece super equilibrado. Ao mesmo tempo, aqueles antigos bom sentimentos em relação a ter um cachorro vieram novamente à tona, quando eu já tinha me convencido de que não gostava mais de cães como antigamente. Mas não é verdade. Eu gosto, só que ninguém aguenta ficar limpando várias vezes xixi e cocô pela casa durante meses e se esforçar para melhorar sem ver progresso algum.

Ainda é cedo, mas por enquanto, contra todas as expectativas, acho que fiz a coisa certa. Amém.

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