Autoconhecimento é ter consciência

Tenho deixado transformar-me a partir da maternidade, conclusão há que havia chegado há pouco mais de um ano. Foi ela que foi o grande estopim para meu autoconhecimento, um processo que vem durando desde o nascimento da minha filha até hoje, por volta de três anos e meio. E, sinceramente, para mim, a parte difícil ou desafiadora da maternidade é justamente essa: olhar-me no espelho.

O autoconhecimento tem muito a ver com TOMAR CONSCIÊNCIA de nossas ações, de nossos comportamentos, reações, emoções, sentimentos e pensamentos e de, continuamente, nos confrontarmos e nos perguntarmos porquê estamos sentido isso ou aquilo, seja algo positivo ou negativo. É tirar do inconsciente e trazer ao consciente. 

A partir dessas reflexões, criamos condições para deixar o modo automático de nossa vida (quando somos vítimas do destino, reativos, passivos) e para começar a operar algumas mudanças em nós, pelo treinamento contínuo, quando nos tornamos protagonistas de nossas vidas, produtivos. O grande benefício dessa abordagem, a meu ver, é dar uma fagulha de esperança àqueles que querem viver uma vida diferente da que vinham vivendo. É possível mudar.

Eu não me conhecia e eu nem tinha consciência disso! Eu não sabia que eu tinha um descontrole emocional grande, com baixa tolerância a frustrações e que, por coisas pequenas, eu era capaz de gritar com minha filha, por exemplo. Só que eu tinha consciência do quanto isso é errado, do quanto não leva a lugar nenhum e eu me sentia pior ainda depois de agir por impulso, depois de reagir automaticamente, com um sentimento de culpa terrível. Só que isso era um círculo vicioso, do qual era difícil sair: raiva-explosão-culpa-complascência.

Agora, como mãe, estou aprendendo que educar não é gritar nem brigar, é C-O-N-V-E-R-S-A-R, dialogar, explicar, aproveitando as oportunidades da convivência do dia-a-dia.  E tudo isso permeado, é claro, pelo clima de afeto, atenção, de prestar atenção na criança, no que ela diz, no que ela faz, fazê-la sentir-se importante e reconhecida. Por isso, para educar, precisamos ter um tempo de qualidade com a criança e aprender a viver no momento presente.

Assim, se acontecer algo que normalmente dispararia em mim uma explosão de raiva, em vez de responder instintivamente, estou aprendendo a respirar um pouco e a ter um atitude pedagógica com a criança. Se não, ela vai aprender justamente a não saber lidar com seus próprios sentimentos. Ela vai aprender que tudo bem gritar se estiver com raiva e que é assim que os problemas são resolvidos....  E estou aprendendo também a gerenciar a culpa quando piso na bola, pois eu não sou perfeita.

Lembro-me bem de um cena que eu passei na casa de uma tia minha que mora no Nordeste. Eu devia ter uns 8, 10 anos e estava muito brava com alguma coisa que não sei mais o que é. Acho que eu batia a porta da casa várias vezes de raiva e NINGUÉM fez nada. A essa altura, meus pais já eram separados e eu só tinha viajado com meu pai. Acho que meu pai não estava em casa essa hora... Aliás, alguém fez algo sim, minha tia, evangélica radical, me pegou e foi orar, impondo a mão sobre mim pedindo que Deus me livrasse daquilo maligno que estava em mim... Foi uma experiência acho que religiosa muito negativa, porque mesmo eu sendo uma criança eu sabia que aquilo não era coisa do diabo, era falta de educação mesmo.

Nesse processo de autoconhecimento, estou me dando conta também de que, paradoxalmente, apesar de eu ter me formado em um curso de Comunicação Social, ou seja, um curso que me ensina tecnicamente a escrever matérias jornalísticas em rádio, TV e jornal impresso, eu tenho uma dificuldade enorme de dialogar com as pessoas quando o tema são as minhas necessidades e sentimentos.

Na verdade, eu tenho dificuldade de discernir minhas próprias necessidades e sentimentos e isso é um legado deixado por meu pai. Uma porque ele é daqueles nordestinos conservadores que, como homem, luta contra isso dentro dele como se esse lado feminino, se é que se pode chamar assim, atentasse contra sua masculinidade.

Outra que, como pai, ele definitivamente não deu espaço para eu me expressar e também ele jamais dialogou com a gente. Na adolescência, por exemplo, só dava espaço para conversas vagas e superficiais, como se namoro, doenças sexualmente transmissíveis, drogas e gravidez não fossem a pauta do dia. Então, eu namorei escondido por quatro anos. Adiantou? Como a minha mãe bem disse um dia desses, nós não éramos filhas obedientes, nós éramos filhas "reprimidas".

Pessoas que, como eu, têm dificuldade de se comunicar sobre seus sentimentos, não são assertivas e acabam deixando algo em um relacionamento ir longe demais para então despejar ou vomitar tudo, na base da ignorância, colocando tudo a perder e perdendo a razão. Ou seja, são pessoas que, por não identificarem o que as incomodam ou irritam, por exemplo, permitem e aceitam certas coisas que, com o passar do tempo, geram uma grande frustração que, por coisas pequenas, tornam-se motivo para uma explosão (descontrole emocional). Uma boa comunicação é a base de um bom relacionamento, seja pessoal ou profissional. Certamente um ponto a ser trabalhado em mim.

Uma das vantagens de eu estar fazendo terapia é justamente ter um espaço semanal na agenda para aprender a identificar meu sentimentos, expressar-me quanto a eles e contar com a ajuda de um olhar profissional para discerni-los.

Eu também não sabia que eu tenho essa tendência de levar tudo para o lado da rigidez, tirando a leveza de desempenhar qualquer atividade que eu acharia, na realidade, prazerosa, como o trabalho, os estudos e a própria maternidade. Tocar a vida como eu vinha tocando torna viver algo pesado. Não é à toa que um dos versículos bíblicos de que mais gostava - e ainda gosto - era o que falava que o fardo de Jesus era leve, afinal eu sempre achava o meu pesado demais.

Só se pode ter um felicidade sustentável quem é emocionalmente maduro. Só se é emocionalmente maduro quem conhece a si mesmo. Só pode conhecer-se a si mesmo quem tem a ousadia de fazer essa viagem para dentro de si.

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