Um pouco da minha história
Entre 2004 e 2012, tive grande momentos em minha vida: passei no vestibular, conheci meu marido, comecei a ter uma religião e a frequentar uma igreja, passei num concurso público, concluí o curso de graduação, casei-me, adquiri um cachorro, criei um blog sobre ele, fui chamada a assumir um outro cargo público, de carga horária menor e, finalmente, fiquei grávida. Tudo isso aos 26 anos. Objetivamente, uma vida maravilhosa. Afinal, uma conquista de tudo o que eu havia planejado.
O cachorro foi uma grande alegria para mim. Sempre quis ter um. Acabei registrando minhas experiências com ele em um blog, que fez um relativo sucesso e elevou minha autoestima. Eu gostava e gosto de escrever e ali eu exercitava isso. Recebi grande reconhecimento do meu marido pelo trabalho desenvolvido no blog e isso me ligou ainda mais a ele.
A gravidez, por seu turno, foi uma fase maravilhosa e até hoje eu não sei bem dizer porque eu me senti tão plena. Sentia-me feminina e responsável por carregar um ser vivo dentro de mim. Ali comecei a me alimentar ainda melhor e a fazer caminhadas. Além disso, eu praticamente não tive enjôos, não engordei demais, minha pele e cabelo estavam lindos. Eu estava radiante e dormi todas as horas que eu poderia. Foi uma fase em que me despi das minhas usuais preocupações e angústias.
Apesar disso, sinto que esse período de 8 anos da minha vida foram desperdiçados. Eu era muito insegura, medrosa e ansiosa, aceitava muita coisa desagradável por parte do meu marido e da família dele, achava meu casamento muitas vezes um peso, sentia-me culpada pela religião, detestei cursar minha faculdade, para a qual nunca tive vocação, e o meu primeiro trabalho foi muito desagradável.
Toda essa seqüência de eventos ruins deve estar associada à grande fragilidade emocional em que me encontrava, porém que eu não admitia. Ao contrário, esforçava-me para parecer uma pessoa que eu não era: feliz, segura, confiante, ousada, serena. Sentia, inclusive, ter a obrigação de fazê-lo, pois, afinal, "eu já havia aceitado Jesus em minha vida e era obrigação Dele me transformar". Para mim, a religião teve o efeito do autoengano. Em vez de procurar a verdade e a sombra dentro de mim mesma, eu me alienava de mim com pregações, apesar de muitas delas serem edificantes.
Eu me pergunto até que ponto essa fragilidade emocional está relacionada ao fato de eu ter me envolvido com meu marido. Ele supriu a minha carência e a minha necessidade de afeto a tal ponto que não importava o quão diferente nós éramos um do outro. Eu não queria enxergar os defeitos dele, eu só queria "ser feliz", na verdade, eu só estava desesperada por alguém que me valorizasse, me reconhecesse, me ouvisse, me achasse engraçada, me tratasse com carinho e com respeito... O resto a gente resolvia. Doce ilusão.
Assim que nos casamos, a convivência mostrou-se difícil e aquele homem que eu achava que me amava tanto e que poderia me fazer feliz - meu príncipe encantado - logo se revelou uma pessoa bem diferente do que imaginei. Eu me calava, porque eu tinha medo de ele me abandonar. Além disso, a mulher deveria ser submissa ao marido. Ele é o cabeça da mulher, é o que a Bíblia diz. Eu também não era perfeita, obviamente. Nós dois éramos muito imaturos emocionalmente também.
É claro que as minhas questões psicológicas não começaram em 2004, elas apenas ficaram evidentes. Afinal, o grande objetivo da minha vida, passar no Vestibular, havia sido atingido e, depois disso, me senti literalmente perdida. Antes de passar no Vestibular, conseguia levar uma vida aparentemente feliz pois estava orientada pela escola. E a escola de fato serviu para organizar-me internamente, pois me dava uma rotina, prioridades e um norte a seguir.
Apesar de excelente aluna e não raro figurar entre as primeiras da série, eu não passei no vestibular e tive que frequentar cursinho, motivo de vergonha para mim. Mas depois acabei me ambientando e foi onde, inclusive, terminei com meu ex-namorado, conheci meu marido e a responsável pela minha conversão à religião. Tudo em apenas 1 semestre de cursinho! Difícil não imaginar como minha vida teria sido diferente se eu tivesse passado de primeira no vestibular.
A minha vida, durante muitos anos, confundiu-se com meus estudos... E isso é um legado deixado por meu pai, que sempre os incentivou. Por outro lado, tendo sido criada exclusivamente por ele a partir de 8 anos, meu pai não tinha competência para me passar noções de cuidados pessoais que uma menina e depois uma moça deveria ter, tais como cuidados com a pele, com o cabelo, as unhas, depilar-se, vestir-se.
Demorei a aprender a me cuidar e, mesmo assim, não me cuidava da forma adequada e, pior, não sentia prazer em cuidar de mim mesma. Frequentei a academia, é verdade, durante a adolescência pois queria ter um corpo em cima para chamar a atenção do namorado. Comia muita pizza e sanduíche e bebia refrigerante. Frutas, verduras e água não faziam parte da minha alimentação, mas eu ainda era magra. Passei a gostar de fazer as unhas somente depois de casada, por causa de uma boa manicure, que faz as minhas unhas até hoje, mas ainda não tinha noção de que unhas bem feitas dão a impressão de uma pessoa bem cuidada. Passei a me vestir muito mal na universidade pública, onde, afinal, era normal ir de havaianas. Voltei a ter vontade de me vestir bem quando passei a trabalhar.
Em relação ao trabalho, sempre frustrante. A imagem que traduz mais claramente esse sentimento é o do meu primeiro dia de trabalho. Ainda empolgada com a missão de servir à sociedade brasileira como servidora pública, recebi meu primeiro kit de trabalho: grampeador, furador, carimbo, cola e canetas. Daí se tira a natureza do trabalho desenvolvido. Eu, na verdade, não me conformava em ter estudado duro durante todos aqueles anos de minha vida para estar numerando processos. E continuava cursando Jornalismo, afinal, o que eu faria além disso? Eu não sabia, eu não me conhecia.
A minha mãe nunca soube cuidar de si. É verdade que ela se vestia muito bem, sabia se maquiar minimamente, sempre estava com as unhas feitas e com os cabelos tingidos e escovados. Porém ela não tinha uma boa alimentação nem colocava o corpo para se movimentar, não tinha momentos de diversão ou lazer, não tinha um hobby, não cuidava da parte interior. Apenas da exterior. Ela se submeteu a inúmeras cirurgias plásticas, procurando modificar várias partes do corpo: orelha, testa, olhos, nariz, lábios, seios, abdomêm. Até que hoje ela se tornou uma pessoa bem diferente do que era. Antes, ela era bonita. E agora ficou plástica, não ficou natural. Mas sei que, mesmo assim, ela está mais confortável com seu nariz pequeno e arrebitado.
De qualquer maneira, aqui estou, quase aos 30 anos, tendo a oportunidade de aprender mais sobre cuidar de mim a partir da convivência com pessoas que se cuidam e da leitura de livros, como: "Mulheres francesas não engordam" e "Mulheres francesas não fazem plástica", de Mireille Guiliano. Observo algumas dessas mulheres e vejo que elas estão anos-luz à minha frente. Como já estão muito bem resolvidas em relação aos cuidados pessoais, já os têm incorporado à rotina, tem mais tempo para outras atividades também. Outro motivador para mim é justamente o fato de eu ter de cuidar de minha filha, menina. Quero que ela se vista bem, que esteja cheirosa, limpa, se comporte, alimente-se bem e, naturalmente, olho para mim e vejo que também preciso me cuidar. Nunca é tarde, porém. Melhor hoje do que nunca.



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