Procurando o cachorro ideal, não perfeito
Lembram que eu estava muito propensa a escolher a raça Coton de Tulear? A dificuldade de encontrar um bom criador e que fosse próximo foi um obstáculo importante que me fez repensar essa escolha. As pesquisas, as conversas e o passar dos dias nos fizeram amadurecer os nossos desejos: estávamos procurando por um cachorro "de verdade" (expressão que permeava grande parte do nosso discurso) e que, ao mesmo tempo, fosse adequado para viver em apartamento na companhia de uma criança pequena, desde que supervisionada. Nenhuma raça de cachorro nem mesmo Labradores ou Golden Retrievers devem ser considerados brinquedos da criança. Além disso, a responsabilidade pelo cuidado do cachorro é sempre dos pais da criança.
O que é, afinal, um cachorro de verdade para nós? Pasmem, mas é um cachorro que late. É um cachorro que vê um besouro ou um lagarto e corre atrás dele. É um cachorro relativamente alerta e destemido. É um cachorro que gosta de correr, de cheirar, de se exercitar, de aprender comandos e de estar perto do dono que dele bem cuida. Não quero um cachorro vocal, que late por tudo. Nem um cachorro monótono, sem vida ou energia, pois, nesse caso, eu teria optado por um gato. "Ah... mas ele solta pêlo e tem cheiro de cachorro". Tudo bem, ele é um cachorro, não é? No final das contas, escolhemos o Norfolk Terrier ou o Norwich Terrier, já que não achamos diferenças de temperamento significativas entre eles.
Mandei uma dezena de emails a criadores de vários lugares, a maioria do exterior, nem todos me responderam. De maneira geral, gostei da resposta da maioria dos criadores estrangeiros. Eles tiveram uma abordagem bem diferente do que costumo encontrar no Brasil. Aparentemente, nos Estados Unidos existe uma cultura mais amadurecida em termos de compra e posse consciente de animais de estimação, não obstante o número de cães abandonados por lá possa ser tão ou mais alto do que aqui no Brasil. É com base no contato que eu tive com alguns criadores de ambas as raças, que escrevo minhas percepções sobre essa cultura mais madura e consciente sobre ter cachorros como animais de companhia.
Responsible and knowledgble breeders know that having a dog is a lifetime commitment (criadores responsáveis e conhecedores da raça sabem que ter um cachorro é um compromisso para a vida inteira). Acho que coloquei meu inglês enferrujado em dia de tanto que li e escrevi nessa língua ao longo da última semana. Enfim, por saberem disso, esses criadores realmente se preocupam, pelo menos em teoria, em selecionar os futuros donos e esperam encontrar para seus filhotes uma família adequada. É quase um processo simplificado e informal de adoção, em que eles apenas incluem a família na lista de espera após o preenchimento de um questionário e de uma entrevista, por telefone ou pessoalmente.
Por isso, eles se dispõem a fazer um acompanhamento do cachorro no pós-venda, com esclarecimento de dúvidas, aconselhamentos. A maioria, inclusive, prevê a devolução do cachorro ao criador em caso de desistência por qualquer motivo. O dinheiro não é devolvido obviamente. Eles realmente querem zelar pelo bem-estar dos cães de sua criação e preferem acolher os cães "rejeitados" para posteriormente encaminhá-los a uma adoção consciente. Estabelece-se claramente uma relação de consumo, porém com características do processo de adoção, dada à natureza do "bem" envolvido: um cachorro, ser vivo capaz de desenvolver certa afetividade com seres humanos. Muitas raças são consideradas "people-oriented", ou seja, orientadas às pessoas, no sentido de sentirem verdadeiro prazer e alegria em agradar seus donos e procurar por afeto deles. Em razão disso, esses cães são descritos como relativamente "dependentes".
Esses criadores estrangeiros com os quais entrei em contato também não costumam ter filhotes disponíveis e (dizem que) respeitam o código de ética de criação da raça que prevê um limite para a prenhez das fêmeas. Então, é comum ler: we ocassionally have puppies avaiable por suitable families (nós ocasionalmente temos filhotes disponíveis para famílias adequadas). Por isso, também é comum haver listas de espera de até 1 ano. Além disso, é relativamente comum encontrar disponível no site ou blog um modelo do contrato a ser firmado, o que reputo por imprescindível antes de decidir comprar de determinado criador, pois é nesse documento onde estão contidos os deveres e os direitos das partes.
Aqui no Brasil o criador querer saber a respeito da sua vida soa como "invasão de privacidade". Então, ninguém perguntou nada para mim. Em relação à saúde, perguntei para todos se faziam exames de saúde antes de acasalarem os cães a fim de afastar doenças genéticas e hereditárias e nenhum deles respondeu afirmativamente. As respostas, vagas, costumam mencionar que eles mantém ótimas linhagens de cães tanto em termos de saúde como de temperamento. Quais garantias temos sobre essas declarações?
Em relação aos contratos de compra e venda, algumas cláusulas costumam ser mais ou menos as mesmas, seja no Brasil ou no exterior. A primeira diz que o filhote deve ser levado para casa a partir de 60 dias (8,8 semanas). Eu me pergunto se essa é realmente a melhor idade para submeter o filhote a uma mudança de vida, especialmente se for pegar uma longa viagem de carro ou uma pequena de avião. Segundo o livro Dog Quest: find the dog of your dreams, escrito pela expertise canina Michele Welton, os cachorros entre 8 e 10 semanas atravessam uma fase chamada "fear imprint period" (período da impressão do medo, eu arriscaria traduzir). Pesquisas sugerem, diz o livro, que o filhote durante esse período pode internalizar profundamente eventuais situações dolorosas, traumáticas, assustadoras e/ou estressantes pelas quais tenha passado e que podem ser difíceis de superar. Assim, de acordo com Welton, uma excelente idade para se levar o cachorro para casa seria entre 11 e 12 semanas (77 e 84 dias), período a partir do qual ele poderá ser perfeitamente submetido ao aprendizado e socialização ainda primários.
A segunda cláusula apregoa que o filhote já será entregue castrado ou deverá ser castrado até os 6 meses. Embora essa medida vise ao desejado controle reprodutivo dos cães, ela parece não considerar a saúde do cachorro e o impacto que essas alterações terão, não na vida do criador, mas na vida dos futuros donos desejosos de se comprometer com esse animal pelos próximos 10, 15 anos. Aliás, a castração é uma questão polêmica uma vez que existem prós e contras a respeito da prática. Como os pontos positivos estão fartamente disponíveis na internet, eu me restringirei a mencionar os negativos. De acordo com o livro 11 things you must do right to keep your dog healthy and happy, também escrito por Welton, as desvantagens de se castrar um macho seriam:
Além disso, a castração não é um "procedimento simples" uma vez que requer anestesia geral.
Finalmente, se for castrar, é importante observar a idade mínima para o procedimento. Michelle adverte que a castração, se realizada na idade errada, aumenta o risco de displasia do quadril, ruptura dos tendões e osteosarcoma (câncer ósseo). Os cachorros precisam desses hormônios reprodutivos por algum tempo para que seus ossos, juntas e tendões possam se desenvolver normalmente. Existe uma idade mínima que ela recomenda para castrar o cachorro de acordo com o tamanho do animal. Para cachorros de até 30 pounds (13,6 kg), ela indica castrar a partir de pelo menos 9 meses de idade. Existem diferenças em relação ao procedimento nas fêmeas, sendo uma delas, além da idade, a recomendação de se esperar pelo menos 1 ou 2 cios.
Com tantas dúvidas envolvendo a castração, entrei em contato com uma amiga que já criou uma determinada raça cachorros no passado. E ela me esclareceu o seguinte:
O que é, afinal, um cachorro de verdade para nós? Pasmem, mas é um cachorro que late. É um cachorro que vê um besouro ou um lagarto e corre atrás dele. É um cachorro relativamente alerta e destemido. É um cachorro que gosta de correr, de cheirar, de se exercitar, de aprender comandos e de estar perto do dono que dele bem cuida. Não quero um cachorro vocal, que late por tudo. Nem um cachorro monótono, sem vida ou energia, pois, nesse caso, eu teria optado por um gato. "Ah... mas ele solta pêlo e tem cheiro de cachorro". Tudo bem, ele é um cachorro, não é? No final das contas, escolhemos o Norfolk Terrier ou o Norwich Terrier, já que não achamos diferenças de temperamento significativas entre eles.
Mandei uma dezena de emails a criadores de vários lugares, a maioria do exterior, nem todos me responderam. De maneira geral, gostei da resposta da maioria dos criadores estrangeiros. Eles tiveram uma abordagem bem diferente do que costumo encontrar no Brasil. Aparentemente, nos Estados Unidos existe uma cultura mais amadurecida em termos de compra e posse consciente de animais de estimação, não obstante o número de cães abandonados por lá possa ser tão ou mais alto do que aqui no Brasil. É com base no contato que eu tive com alguns criadores de ambas as raças, que escrevo minhas percepções sobre essa cultura mais madura e consciente sobre ter cachorros como animais de companhia.
Responsible and knowledgble breeders know that having a dog is a lifetime commitment (criadores responsáveis e conhecedores da raça sabem que ter um cachorro é um compromisso para a vida inteira). Acho que coloquei meu inglês enferrujado em dia de tanto que li e escrevi nessa língua ao longo da última semana. Enfim, por saberem disso, esses criadores realmente se preocupam, pelo menos em teoria, em selecionar os futuros donos e esperam encontrar para seus filhotes uma família adequada. É quase um processo simplificado e informal de adoção, em que eles apenas incluem a família na lista de espera após o preenchimento de um questionário e de uma entrevista, por telefone ou pessoalmente.
Por isso, eles se dispõem a fazer um acompanhamento do cachorro no pós-venda, com esclarecimento de dúvidas, aconselhamentos. A maioria, inclusive, prevê a devolução do cachorro ao criador em caso de desistência por qualquer motivo. O dinheiro não é devolvido obviamente. Eles realmente querem zelar pelo bem-estar dos cães de sua criação e preferem acolher os cães "rejeitados" para posteriormente encaminhá-los a uma adoção consciente. Estabelece-se claramente uma relação de consumo, porém com características do processo de adoção, dada à natureza do "bem" envolvido: um cachorro, ser vivo capaz de desenvolver certa afetividade com seres humanos. Muitas raças são consideradas "people-oriented", ou seja, orientadas às pessoas, no sentido de sentirem verdadeiro prazer e alegria em agradar seus donos e procurar por afeto deles. Em razão disso, esses cães são descritos como relativamente "dependentes".
Esses criadores estrangeiros com os quais entrei em contato também não costumam ter filhotes disponíveis e (dizem que) respeitam o código de ética de criação da raça que prevê um limite para a prenhez das fêmeas. Então, é comum ler: we ocassionally have puppies avaiable por suitable families (nós ocasionalmente temos filhotes disponíveis para famílias adequadas). Por isso, também é comum haver listas de espera de até 1 ano. Além disso, é relativamente comum encontrar disponível no site ou blog um modelo do contrato a ser firmado, o que reputo por imprescindível antes de decidir comprar de determinado criador, pois é nesse documento onde estão contidos os deveres e os direitos das partes.
Aqui no Brasil o criador querer saber a respeito da sua vida soa como "invasão de privacidade". Então, ninguém perguntou nada para mim. Em relação à saúde, perguntei para todos se faziam exames de saúde antes de acasalarem os cães a fim de afastar doenças genéticas e hereditárias e nenhum deles respondeu afirmativamente. As respostas, vagas, costumam mencionar que eles mantém ótimas linhagens de cães tanto em termos de saúde como de temperamento. Quais garantias temos sobre essas declarações?
Em relação aos contratos de compra e venda, algumas cláusulas costumam ser mais ou menos as mesmas, seja no Brasil ou no exterior. A primeira diz que o filhote deve ser levado para casa a partir de 60 dias (8,8 semanas). Eu me pergunto se essa é realmente a melhor idade para submeter o filhote a uma mudança de vida, especialmente se for pegar uma longa viagem de carro ou uma pequena de avião. Segundo o livro Dog Quest: find the dog of your dreams, escrito pela expertise canina Michele Welton, os cachorros entre 8 e 10 semanas atravessam uma fase chamada "fear imprint period" (período da impressão do medo, eu arriscaria traduzir). Pesquisas sugerem, diz o livro, que o filhote durante esse período pode internalizar profundamente eventuais situações dolorosas, traumáticas, assustadoras e/ou estressantes pelas quais tenha passado e que podem ser difíceis de superar. Assim, de acordo com Welton, uma excelente idade para se levar o cachorro para casa seria entre 11 e 12 semanas (77 e 84 dias), período a partir do qual ele poderá ser perfeitamente submetido ao aprendizado e socialização ainda primários.
A segunda cláusula apregoa que o filhote já será entregue castrado ou deverá ser castrado até os 6 meses. Embora essa medida vise ao desejado controle reprodutivo dos cães, ela parece não considerar a saúde do cachorro e o impacto que essas alterações terão, não na vida do criador, mas na vida dos futuros donos desejosos de se comprometer com esse animal pelos próximos 10, 15 anos. Aliás, a castração é uma questão polêmica uma vez que existem prós e contras a respeito da prática. Como os pontos positivos estão fartamente disponíveis na internet, eu me restringirei a mencionar os negativos. De acordo com o livro 11 things you must do right to keep your dog healthy and happy, também escrito por Welton, as desvantagens de se castrar um macho seriam:
- triplicar o risco de obesidade;
- aumentar o risco de hemangiosarcoma (um câncer fatal);
- triplicar o risco de hipotireoidismo;
- aumentar o risco de alterações cognitivas em idosos.
Além disso, a castração não é um "procedimento simples" uma vez que requer anestesia geral.
Finalmente, se for castrar, é importante observar a idade mínima para o procedimento. Michelle adverte que a castração, se realizada na idade errada, aumenta o risco de displasia do quadril, ruptura dos tendões e osteosarcoma (câncer ósseo). Os cachorros precisam desses hormônios reprodutivos por algum tempo para que seus ossos, juntas e tendões possam se desenvolver normalmente. Existe uma idade mínima que ela recomenda para castrar o cachorro de acordo com o tamanho do animal. Para cachorros de até 30 pounds (13,6 kg), ela indica castrar a partir de pelo menos 9 meses de idade. Existem diferenças em relação ao procedimento nas fêmeas, sendo uma delas, além da idade, a recomendação de se esperar pelo menos 1 ou 2 cios.
Com tantas dúvidas envolvendo a castração, entrei em contato com uma amiga que já criou uma determinada raça cachorros no passado. E ela me esclareceu o seguinte:
Castrar após o desenvolvimento físico completo é melhor para a saúde. Entretanto, castrar antes do desenvolvimento completo dos machos privilegia o lado comportamental. Você precisa escolher o que privilegiar: saúde ou comportamento. EU prefiro privilegiar comportamento - um cão castrado comporta-se melhor e tende a ser mais feliz em sua família, indiretamente, isso reflete em sua saúde. No caso de fêmeas, castrar depois do primeiro cio é melhor de maneira geral. Fêmeas mal-educadas montam. Machos mal-educados montam. SÓ!
Como candidatos a futuros donos de cães, devemos procurar informações que nos esclareçam e nos possibilitem uma decisão e compra realmente conscientes. Normalmente, porém, nós apenas aceitamos as condições dadas porque "sempre foram assim" sem nos perguntarmos se fazer dessa ou daquela forma é realmente a maneira mais adequada para a saúde e bem-estar do cachorro. Ter um cachorro saudável, cuidadosamente socializado nas primeiras semanas e trazido para o novo lar em uma fase de desenvolvimento adequada, no entanto, é apenas uma das coisas que se espera ao se adquirir um cachorro de um criador responsável, mas não é suficiente para fazer desse cão um verdadeiro integrante da família.
Na verdade, não existe o cachorro perfeito, pois todos têm aspectos positivos e negativos. Certas raças têm determinados traços, notadamente em razão da função para a qual foram criadas (pastoreio, caça, entre outros), que podem ser um "problema" para determinadas famílias e uma alegria para outras. Na hora de colocar na balança e tomar a decisão final, devemos estar conscientes de todos esses aspectos para responder honestamente se estamos dispostos a lidar com eles pela próxima década.
A escolha do cachorro ideal (não perfeito, mas adequado) tem muito a ver com auto-conhecimento: saber a razão pela qual você quer incluir um cachorro em sua vida, identificar seu estilo de vida, saber se o cachorro é adequado para idosos, crianças, outros animais, a depender do seu contexto, a quantidade de exercícios que pode oferecer ao cachorro, a quantidade de horas que o cachorro ficaria sozinho em casa, se está disposto a varrer os pêlos que caem (shedding) e com qual frequência, se está disposto a pentear os pêlos do cachorro (grooming) e com qual frequência, se está disposto a ensiná-lo a fazer as necessidades no local correto, se está disposto a arcar com despesas, algumas delas fixas, como vacinas, consultas ao veterinário, exames, alimentação, entre outros.
A única coisa certa aqui é que nada é 100% garantido. Trata-se de reduzir riscos de futuros desapontamentos originados de decisões impulsivas e impensadas.
A escolha do cachorro ideal (não perfeito, mas adequado) tem muito a ver com auto-conhecimento: saber a razão pela qual você quer incluir um cachorro em sua vida, identificar seu estilo de vida, saber se o cachorro é adequado para idosos, crianças, outros animais, a depender do seu contexto, a quantidade de exercícios que pode oferecer ao cachorro, a quantidade de horas que o cachorro ficaria sozinho em casa, se está disposto a varrer os pêlos que caem (shedding) e com qual frequência, se está disposto a pentear os pêlos do cachorro (grooming) e com qual frequência, se está disposto a ensiná-lo a fazer as necessidades no local correto, se está disposto a arcar com despesas, algumas delas fixas, como vacinas, consultas ao veterinário, exames, alimentação, entre outros.
A única coisa certa aqui é que nada é 100% garantido. Trata-se de reduzir riscos de futuros desapontamentos originados de decisões impulsivas e impensadas.
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