Decidindo a raça do cachorro

Nós estávamos decididos pelo Schnauzer Miniatura, lembram? Lemos sobre o temperamento da raça, assistimos a vídeos e vimos muitas e muitas fotos. Eu já estava vendo o dia do nosso barbudinho chegar... Então começamos a pesquisar sobre criadores da raça. Havia uma quantidade razoável de canis, mas fiquei bem desapontada com a qualidade. Deixe-me explicar.

O site do canil é a primeira impressão que temos a respeito do criador. Claro que a aparência do site ou do blog pode dar um falso ar de maior profissionalismo e respeitabilidade, mas desanima ver alguns blogs, não é mesmo? Enfim, mesmo antes de ter me aprofundado mais no assunto, eu já procurava nos sites por algumas informações, como, por exemplo:

- quantidade de raças criadas. Desconfio quando há muitas raças. O ideal é que seja no máximo duas.
- a história que motivou a pessoa a criar a raça. Se não há essa história, fico com um pé atrás, pois PODE SER um sinal de que a motivação seja exclusivamente financeira: lucrar com a venda de filhotes.
- preocupação em adquirir e manter boas linhagens de cachorro. A essa altura, eu não sabia bem o que significava isso. Eu achava que era suficiente ter alguns cães com vários títulos nesses campeonatos de cinofilia (champion, best in show etc...)
- descrição do temperamento da raça, inclusive aspectos negativos. Se o criador preocupa-se em retratar um perfil honesto da raça, não apenas os aspectos positivos, já é um indicativo de que ele se preocupa em conscientizar o futuro dono sobre o cachorro que ele está querendo levar para casa. 
- fotos do lugar onde vivem os cães. 
- disponibilidade para receber visitas ao canil.

Em geral, eram essas as informações pelas quais procurava e, após esse primeiro filtro, eu seguia para o passo 2: entrar em contato com os criadores. Mandei email para vários. Paralelamente eu ia lendo cada vez mais sobre a raça, procurando por diferentes fontes de informação, inclusive e principalmente na língua inglesa, pois as informações disponíveis em português estavam muito repetitivas, não indo muito além do que é descrito no padrão oficial da raça. 

Obtive resposta de cinco ou seis criadores. Absolutamente nenhum deles quis saber sobre mim, se eu teria condições de receber e conviver bem com um cachorro dessa raça. Eles não demonstraram preocupação em saber se aquela vontade minha partia de uma decisão consciente e bem pensada e se esse empreendimento teria chances de dar certo. Não perguntaram se ele iria morar em casa ou apartamento, se iria ou não conviver com crianças ou outros animais. Não indagaram se ele ficaria muitas horas sozinho em casa e se teria alguém para passear com ele. 

"Quem sabe da sua vida é você". Sim, mas um criador responsável se preocupa em aquisições responsáveis pois estamos falando da vida de um animal, que tem necessidades específicas, e de mudanças na dinâmica familiar com a chegada desse animal. Não é como comprar um televisor ou um carro. É comum as pessoas criarem expectativas equivocadas a respeito do cachorro e realmente não terem se esclarecido a respeito dos "contras" de se ter um cachorro ou de se ter um cachorro de determinada raça. Em boa parte, isso acontece devido à falta de boa informação disponível, informação essa que um criador responsável teria o dever de transmitir aos potenciais compradores. 

A ânsia por fazer uma escolha acertada e que tivesse um final feliz para a minha família e para o cachorro, me fez ir em busca de mais informações. Até que encontrei o site Your Pure Breed Puppy, de Michele Welton. Ela tem mais de 35 anos de experiência com cães, desde psicologia até obediência canina. Está online há 14 anos e seu site é um dos mais antigos e respeitados sobre cachorros. Eu li a respeito de várias raças e achei os relatos mais honestos do que encontramos na maioria dos sites de criadores. Ela realmente parece saber do que está falando e se preocupa com a aquisição consciente de um cachorro. Resolvi comprar o E-book dela: Dog Quest, find the dog of your dream

Eu li uma boa parte do livro e ali entendi que não basta a um criador ser apaixonado por uma determinada raça, ele deve conhecer de genética se estiver preocupado em reduzir a incidência de doenças genéticas nos cães. Pude entender porque os cães de raça possuem mais doenças genéticas que os vira-latas e constatei que a criação de cães no século XXI é um verdadeiro desafio no sentido de manter uma raça sem o comprometimento de sua saúde. Conheci os crossbred dogs ou "design dogs", aqueles resultantes do cruzamento de cães de raça, porém de diferentes raças, resultando, por exemplo, em labradoodles (mistura de labrador com poodle). Fiquei mais aberta aos cachorros sem raça definida (SRD), mas ainda não tenho o coração para adotar um e admiro quem o tenha. 

A autora apresenta também orientações para encontrar um criador responsável e conhecedor da raça. Verdade seja dita. Ela descreve um ideal que é muito difícil de se alcançar na prática, nessa vida nossa de cada dia. A minha vida não é perfeita, não é um comercial de margarina e a criação de cães também não. Mas a leitura valeu porque a proposta dela é esclarecer assuntos sobre os quais não temos muito acesso para que saibamos exatamente onde estamos nos metendo e, assim, evitar futuros desapontamentos e frustrações. Se não é possível encontrar um criador que preencha todos os pré-requisitos traçados, que pelo menos encontremos algum que preencha a maior parte deles. Por exemplo, a existência de acompanhamento no pós-venda, quando aparecerem dúvidas e eventuais problemas de saúde no cachorro. Não seria bom contar com a expertise de um profissional, que conhece bem a raça e que se preocupa em manter a saúde dos seus cães?  

Nessa procura, tinha a impressão de que ora eu encontrava a raça certa e o criador errado, ora o criador certo e a raça errada. A maior quantidade de leitura nos fez repensar a raça e procurar por outras opções. Meu marido começou assistindo aquela série do Animal Planet, disponível no You Tube, chamada Dogs 101, que apresenta raças de cachorro de A a Z. Embora o programa enfatize o aspecto positivo da raça, permite conhecer raças menos populares e fazer uma primeira filtrada.

Foi assim que conhecemos o Cavalier Charles King Spaniel. No início, fiquei hesitante pois, há alguns anos, havia assistido ao documentário Segredos do Pedigree, da BBC, também disponível no You Tube, e fiquei alarmada com a severidade de uma doença que pode acometer essa cachorro. Mas resolvi ceder e fui ver o vídeo sobre a raça. Pense num cachorro adorável e de temperamento perfeito? É ele! O problema dele é justamente a saúde. A raça possui uma alta incidência de doenças genéticas graves, sendo a mais conhecida a doença da válvula mitral. Mas quem sabe um bom criador poderia reduzir esses riscos? 

A demora em obter respostas dos criadores ou, mais provavelmente, a minha grande ansiedade para definir qual cachorro se encaixaria em nossa vida, acabou nos levando a continuar as pesquisas sobre as raças. Fizemos oscilações entre o Yorkshire (grupo dos Terriers) e o Shih Tzu (grupo dos cães de companhia). Amadurecemos as nossas expectativas e as nossas limitações. Pelo que estamos procurando mesmo? Por um cachorro de companhia, que se adapte bem a apartamento, que não exija muitos exercícios físicos, que goste de brincar com crianças, que seja razoavelmente adestrável, preferencialmente de pequeno porte, que não solte muito pêlo, que seja vivo, alegre, sociável e saudável (leia-se: viva com saúde por pelo menos 10 anos).

Foi quando encontramos quatro raças pouco conhecidas e das quais nós nunca tínhamos ouvido falar: o Coton de Tulear e o Bicho Havanês (Havanese), ambos do grupo dos Cães de Companhia, o Norwich Terrier e seu "primo", o Norfolk Terrier, ambos do grupo dos Terriers. Embora eu esteja ciente de que cada cachorro tenha uma personalidade única e de que pode haver variações de temperamento de uma criação para outra, segue aqui a descrição do temperamento esperado pelas referidas raças de acordo com o padrão oficial, segundo a Confederação Brasileira de Cinofilia (CBKC), editado:

Coton de Tulear


Pequeno, pelos longos, cão de companhia, com uma pelagem branca de textura de algodão, com olhos escuros, redondos e uma expressão viva e inteligente. De caráter alegre, equilibrado e muito sociável com os humanos e com outros cães. Adapta-se perfeitamente a qualquer estilo de vida. O temperamento do Coton de Tuléar é uma das principais características da raça. 



Bichon Havanês




O Havanês é um cão pequeno e forte, de pernas curtas, com longos e abundantes pelos macios e preferencialmente ondulados. Seu movimento é livre e elástico. Excepcionalmente brilhante, é facilmente treinável como cão de alarme. Afetuoso, de natureza feliz, é amável, charmoso, brincalhão e até um pouco “palhaço”. Ama as crianças e brinca com elas incansavelmente. 

Norwich Terrier

É um dos menores “terriers”. Pequeno, vivaz, compacto e forte, dorso curto, boa substância e ossatura. De índole amável, não é brigão, tremendamente ativo, com constituição vigorosa; alegre e destemido. 

Norfolk Terrier

É um dos menores “terriers”. Pequeno, vivaz, compacto e forte, dorso curto, boa substância e ossatura. De índole amável, não é brigão, é um “demônio” para seu tamanho, com constituição vigorosa; alerta e destemido. 

O Coton de Tulear apresenta, em tese, exatamente aquilo que eu espero de um cachorro de companhia, pois ele é um cachorro de pequeno porte descrito como tendo um coração de cachorro de grande porte, tipo o do Golden Retriever. Além disso, o seu temperamento o fez conhecido como cão "anti-estresse" e "anti-depressivo". Tem também uma pelagem macia e apresenta, de maneira geral, uma boa saúde, além de praticamente não soltar pêlos e não ter o cheiro característico de cachorros. Por enquanto, estamos muito satisfeitos com a teoria dessa raça. O Bichon Havanês tem um temperamento e aparência muito similares ao Coton, embora este tenha origem em Madagascar e o outro em Cuba. Não sei no momento pontuar as diferenças entre os dois, além da óbvia pelagem predominantemente branca do Coton.

Também planejamos ter um segundo cachorro para fazer companhia para o primeiro que ainda nem temos! Para segundo cachorro, pensamos num terrier, que atende mais às exigências do meu marido, em termos de se aproximar daquele ideal de cachorro. A gente não pensa em um cachorro lânguido, dormindo e que apenas se levante para nos seguir ao mudar de cômodo da casa, mas um que vá atrás de um besouro que entra em nosso apartamento, por exemplo, e participe ativamente da vida em família.

O Norwich e o Norfolk são apresentados como cães muito semelhantes, sendo a diferença mais marcante a orelha em pé (no primeiro) e a orelha caída (no segundo). Além disso, segundo li acho que no Wikipedia inglês, o Norwich tem a proporção de pernas e coluna mais exata, assemelhando-se a sua estrutura a um quadrado, enquanto o Norfolk tem a coluna ligeiramente mais extensa que as pernas, assemelhando-se a um retângulo.

De acordo com o padrão oficial, ambos são amáveis, muito ativos e destemidos. Mas um é descrito como alegre e o outro como alerta. Isso é bem diferente, não? Mas será que é assim mesmo? Ambos não podem ser alegres e alertas? Além disso, no ranking de inteligência canina, o Norwich está na 38ª posição enquanto o Norfolk ocupa a 56ª.

Para concluir...

Fica a dúvida: o que me garante que o cachorro que eu vá adquirir apresentará o temperamento descrito no padrão e que viverá de maneira saudável pelos próximos 10 anos pelo menos? As fotos ou mesmo os vídeos da ninhada? Em termos de saúde, o ideal é que o criador evitasse o máximo possível de cruzamentos entre parentes próximos (o que envolve pelo menos 8 gerações sem a mesma ascendência em comum) e que fizesse exames de saúde nas matrizes (fêmeas) e padreadores (machos) antes do acasalamento a fim de detectar possíveis doenças hereditárias e genéticas. Veja as doenças mais comuns em cada raça bem como os exames exigidos para detectar tais doenças no site do Canine Health Information Center. Atenção: ter "passado" no teste não significa que o cão não seja portador de um gene defeituoso, ele pode apenas não apresentar a característica. Apenas os testes de DNA podem dizer isso, mas poucas doenças em poucas raças foram mapeadas até o momento.

Em termos de temperamento, o ideal é que o criador leve em consideração o temperamento na seleção de cães a serem acasalados, submeta os filhotes a condições adequadas de saúde, higiene e socialização, inclusive acostumando-os ao ambiente familiar. O ideal é que eu vá até o canil, conheça  toda a ninhada e faça pequenos testes para saber aproximadamente se o cachorro têm tendências tímidas ou dominantes (veja o vídeo a seguir, sobre isso). Mas eu vou viajar para outro estado (ou para outro país) para isso? Será que algum criador da raça que desejamos permite que façamos a escolha do filhote dessa maneira?





Em todo negócio de compra de filhotes de cachorros há riscos e poucas garantias.  Cabe a nós avaliarmos alguns aspectos, colocar na balança e saber se estamos dispostos a encará-los. Esses riscos poderão ser minimizados e, em caso de problemas, até reparados. Há contratos de compra e venda de cachorros, por exemplo, que prevêem a possibilidade de um novo filhote em caso de graves problemas genéticos ou hereditários até determinada idade, coisa que eu acho meio difícil de se encontrar no Brasil. E que uma decisão consciente seja feita! Se o final será feliz? Ninguém garante! 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Miracle Morning #dayfive

Vou mudar a minha filha de escola

Essa tal felicidade...