Quero mudar

O artigo de inauguração deste blog falava sobre como a maternidade representou para mim um daqueles momentos da vida em que temos a chance de reconhecer nossas faltas e mudarmos. Isso não é fácil, não é rápido, é um exercício diário, um processo que nunca tem fim.

Sempre tive muita dificuldade em ouvir críticas, mesmo as construtivas. Eu procurava me defender, racionalizar, argumentar, me justificar. Pior: eu criticava os outros para não ter de admitir as minhas próprias faltas. Tudo para não ter de olhar para dentro de mim e perceber a realidade nua e crua.

Não por me achar perfeita. Ao contrário. Minha autoestima foi sempre tão baixa que eu não tinha fôlego para reconhecer falhas em mim. Era doloroso demais. Por isso, eu era, sou perfeccionista: tento não errar para não ser criticada, para ser aceita, para ser amada. E como não quero falhar, também tenho medo de tentar, de ousar, de fracassar.

Só conseguimos receber positivamente uma crítica se tivermos a CORAGEM e a OUSADIA necessárias para ENFRENTAR a "verdade" sobre nós. Só depois que paramos para pensar nisso, sem mecanismos de defesa, mas de autoexame, poderemos descobrir até que ponto essa verdade é mesmo verdade.  

Naturalmente, essas faltas não trabalhadas em mim representaram dificuldades na minha vida, nas esferas pessoal, social e profissional. Mas, mesmo assim, eu não estava aberta a mudanças. E fui construindo um castelo em torno disso, o que tornava as mudanças ainda mais difíceis.

Com o nascimento da minha filha, percebi que me faltavam justamente aquelas coisas que eu relutava tanto em trabalhar. Com aquelas velhas questões, eu não conseguia desenvolver o potencial de mãe que eu sempre sonhara em ser. A mesma história com a minha vida profissional estava agora se repetindo com a maternidade.

A primeira coisa que eu percebi é que apenas aquelas pessoas que nos amam, que realmente se importam conosco, nos apontam onde podemos melhorar, nos dando um toque, muitas vezes sutil. Isso claro se dermos abertura. Porém, por muito tempo, eu interpretei esses "toques" como uma tentativa de mudarem quem eu era. Hoje eu vejo que não era bem assim, eram alguns pontos que eu precisava trabalhar para o bem das pessoas que conviviam comigo. As pessoas que não gostam da gente, não dão a mínima. Querem é que continuemos a incorrer nos mesmos erros, para terem do que falar mal da gente.

Eu demorei a perceber, com mais clareza, onde eu errava. Cheguei a fazer seis meses de uma boa terapia, o que ajudou bastante (e vou retornar). E, afinal, que questões são essas que eu preciso trabalhar? Eu preciso desenvolver mais a docilidade em mim. Eu incrivelmente conseguia ser uma pessoa mole, sem firmeza e, ao mesmo tempo, ríspida, indócil. Até lembrei de uma chefe que eu tinha. Claro que essa falta de amor nas minhas palavras não é algo que eu faça intencionalmente. É uma forma agressiva de falar, que acaba afastando as pessoas de mim, acaba magoando a minha filha sem necessidade, acaba, quiçá, tornando-a resistente aos meus pedidos e ordens.

Outra questão é que eu posso e devo trabalhar muito a minha sensibilidade com relação à necessidade do próximo. Eu era, sou muito focada em mim, nas minhas necessidades e nos meus problemas. Geralmente, não havia uma genuína preocupação pelo outro. Essa visão auto-centrada traz conseqüências nefastas. A gente acha que o mundo gira em torno de nós e que os nossos problemas são sempre mais graves e urgentes que o dos outros. Não creio que isso seja em decorrência de egoísmo, mas de uma falta de habilidade em lidar com "problemas". O que nos leva para o próximo ponto a ser trabalhado.

Percebi que eu mal dou conta de lidar com os meus próprios problemas, então, o problema dos outros muitas vezes simplesmente era "demais" para mim. Era mais fácil fingir que eles não estavam ali. Isso me mostrou como eu precisava amadurecer e dar conta da minha própria vida, sem contar com a ajuda do "papai".

Tenho outras falhas, que associo mais como conseqüências desses problemas descritos acima. A sensibilidade para as minhas próprias coisas é alta demais. Sofro demais por coisa de menos. As coisas me magoam com facilidade. Pequenas coisas me tiram do sério. Acho-me impaciente, nervosa, estressada, apavoro-me com facilidade. Se eu estiver cansada e sem dormir, essas coisas pioram demais. Mas se eu estiver descansada e com o sono em dia, mesmo assim não é o suficiente para me tornar uma pessoa mais calma, paciente, serena e tranquila.

Não é difícil perceber que esse conjunto de características me levam a um constante desequilíbrio. Mas estou disposta a encarar. Cada novo dia é uma nova oportunidade para tentar fazer diferente, para aprender. E acho que isso é saber viver.

Eu acredito em Deus. Mas perdi muito tempo da minha vida pensando que Ele faria a mudança em mim no sentido de orar e achar que, no dia seguinte, eu acordaria uma pessoa diferente. Quanta imaturidade! Hoje eu acredito que Ele quer que eu encontre maneiras de desenvolver instrumentos e ferramentas internas e psicológicas que gerem essa mudança em mim. Mas Ele não vai deixar de fazer com que eu passe por esse processo. Viver é uma construção diária.

Portanto, tenho procurado fazer coisas que cooperem com esse objetivo: praticar exercícios físicos, sentir-me bem na minha própria pele, fazer terapia e, recentemente, por indicação do Tudo sobre minha mãe, tenho praticado os exercícios de meditação (mindfullness) sugeridos no excelente aplicativo para smartphones Headspace.

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