Opinião sobre o livro "Crianças francesas não fazem manha"

Ganhei de presente de aniversário de uma amiga, que considero a madrinha "extra-oficial" da minha filha, o best-seller "Crianças francesas não fazem manha", de Pamela Druckerman. Agradeci, mas não deixei de imaginar o motivo: "será que ela está achando (como eu) que a minha filha está passando dos limites e que participar de eventos sociais está se tornando uma missão quase impossível?"

Minhas referências sobre a cultura francesa restringem-se praticamente às minhas aulas de francês na Aliança Francesa e a dois livros: "Por que as mulheres francesas não engordam", escrito por uma francesa, e "Crianças francesas não fazem manha", de uma americana que passou a morar e teve seus três filhos em Paris.

Eu gostei do livro e, de um modo geral, concordo com os princípios da educação de filhos à la française descritos. Agora se as coisas ocorrem na França da maneira como a autora descreveu, eu já não sei. Em um blog que gosto de acompanhar, uma leitora anônima faz uma ferrenha crítica ao jeito francês de educar os filhos, segundo ela nota na vida real.

Gosto da ideia de fomentar a autonomia na criança, com segurança, claro. Acho que concordo com Rousseau, mencionado no livro: "Se, ao cuidar demais, você os poupa de todo tipo de desconforto, você está preparando grandes sofrimentos para eles". Na verdade, muitas vezes, os medos e as ansiedades não elaborados dos próprios pais são despejados sobre as crianças sob a forma de superproteção. Tenho muitas conhecidas que confundem superproteção com zelo e acham que isso as torna boas mães.

Também aprecio a ideia de, desde o início, ensinar a criança a esperar. Cheguei num ponto, em minha casa, de não conseguir passar uma instrução completa para a minha diarista sem ser interrompida pela minha filha de dois anos e meio. Existe uma diferença grande entre ensinar a criança a esperar e não dar atenção para ela, certo?

Eu sinceramente senti um enorme alívio ao ler que era NORMAL e, melhor, era SAUDÁVEL ensinar a criança a esperar. Pensei: "Poxa, que bom, alguém se lembrou que a mãe também é gente e também tem necessidades! Viva!" Além disso, eu realmente acredito que ensinar os filhos a esperar os ajuda a desenvolver a paciência e o autocontrole, habilidades emocionais essenciais para uma vida social saudável.

Observando a minha filha, eu noto que ela é muito mais calma e feliz quando há limites claros sobre o que pode e o que não pode fazer. Quando eu, que sou a mãe, a deixo controlar a situação, ela começa a fazer tudo o que quer, na hora que quer, do jeito que quer (n'importe quoi). O resultado? Uma criança descontrolada, chorona, "chata" e decididamente não feliz.

Houve uma vez em que ela estava descontrolada porque não queria tomar banho. Eu não sei o que fiz ao certo, talvez a tenha pegado firme, olhado nos olhos dela e conversado sobre o porquê de tomar banho, e ela quase imediatamente parou de chorar. Pela expressão dela, achei que ela quisesse me dizer algo como: "obrigada, mamãe, por me dar limites". Ela fica em paz. E eu também.

Aliás, uma parte fundamental nessa tarefa de dar limites é conversar com a criança. Segundo o livro, que abordou bastante as teorias da francesa Françoise Dolto, que foi psicanalista e pediatra, as crianças devem ser encaradas, desde bebês, como seres racionais e capazes de compreender o que os adultos falam para elas. "Se os bebês entendem o que você diz para eles, você pode ensinar muitas coisas, mesmo quando são bem pequenos. Isso inclui, por exemplo, como comer em restaurantes".

Quanto às refeições, considero excelente a forma de alimentar-se descrita no livro. Quatro refeições com horários mais ou menos estabelecidos: 8h (café da manhã), 12h (almoço), 16h (lanche ou goûter) e 20h (jantar). Suco apenas no café da manhã e no lanche. Nas demais refeições, água. Fora dessas refeições, não beliscar para que a criança tenha fome o suficiente na hora em que a comida for servida.

Isso não quer dizer que se ela tiver fome às 11h, eu vá recusar comida. Eu vou avaliar. Tem tantas alternativas para um pedido de comida fora de hora. Oferecer água (pode ser sede, não fome), dar uma fruta, antecipar o almoço se possível ou dizer para esperar um pouco mais...  Note que um princípio (manter regularidade no horário das refeições e não beliscar entre elas) não estabelece uma regra, uma fórmula, uma receita de bolo. Apenas norteia a ação dos pais e deve ser contrabalanceado com outros princípios.

Há dois conceitos na cultura francesa de criação dos filhos mencionados no livro e que me chamaram muito a atenção: o cadre e o gerenciamento da culpa. O cadre é como um quadro de limites criado pelos pais. Esses limites são rígidos. Dentro deles, porém, há muita liberdade para a criança se expressar.

O gerenciamento de culpa consiste na administração interna de culpa que a mãe sente basicamente em situações em que ela deixa de lado seu papel de mãe e entrega o filho aos cuidados de outra pessoa ou instituição (em que confie, naturalmente) para se dedicar a outras atividades: trabalhar, sair para um programa com o marido, praticar exercícios físicos ou qualquer outra coisa.

Existem pontos questionáveis mencionados no livro acerca da cultura francesa aplicada à criação de filhos? Certamente que sim. A falta de incentivo à amamentação é um deles, talvez o principal. Eu particularmente não achei a experiência da amamentação maravilhosa como descrita por muitas mães, mas reconhecia ali uma importante maneira de me vincular a minha filha e de ela se vincular a mim. (Amamentei até os quatro meses de vida da minha filha mais ou menos, quando passei a concorrer com o suplemento introduzido justamente para suplementar o meu leite, cuja produção diminuiu a partir dos três meses, período em que passei por uma grave crise em meu casamento). Aliás, notei que houve uma coincidência entre a introdução da mamadeira e o fato de minha filha ter passado a dormir períodos mais prolongados de sono. Só não posso estabelecer cientificamente uma relação de causalidade entre os dois fatos.

O tema sobre a hora de dormir é também discutido no livro de Pamela. Segundo ela, muitas crianças francesas dormem a noite toda (faire la nuit) em um, dois meses. Ela menciona casos de até uma semana. Eu considero muito pouco tempo para dormir a noite toda até porque, segundo li na época em que eu estava preocupada com as minhas noites insones e o próprio livro menciona rapidamente, os ciclos circadianos não estão desenvolvidos em uma criança tão pequena assim. Esse ajuste do relógio biológico, com consequente diferenciação do ritmo de funcionamento do organismo ao longo das 24h do dia, forma-se após os três meses. A minha filha passou a dormir noites inteiras de sono aos quatro meses, mas foi algo gradual, sempre dormindo um pouco mais até dormir uma noite inteira. De qualquer modo, o livro fala que construir esse hábito de dormir a noite toda deve ser feito até os quatro meses do bebê.

Outra questão que me fez refletir era sobre como o excesso de autoridade (autoritarismo), rigor e formalismo podem afetar negativamente a relação entre os pais e a criança. A verdade é que perdemos a oportunidade de aprender a curtir nossos filhos quando achamos que a nossa única participação como pais na vida deles é a de colocar limites ou ensinar-lhes a cumprimentar as pessoas. Vai ver que esse excesso, se é que existe, tenha alguma relação com as maiores taxas de depressão e de suicídio na França em comparação com os demais países da Europa, como mencionado na crítica.

Quero curtir minha filha, brincar, dar afeto, rir, mas quero também que ela respeite a minha autoridade e os limites que eu coloco. A questão é que, apesar de serem questões aparentemente antagônicas, não há aí uma dicotomia. Como harmonizar isso? Não perdendo de vista alguns princípios basilares.

Embalada no enredo de sua própria história de vida, a autora nada mais faz que ressaltar alguns desses princípios ainda vívidos na cultura francesa, mas deixados de lado nos Estados Unidos. Diz a autora na introdução do livro: "(...) com todos os seus problemas, a França é o contraste perfeito para os problemas atuais no estilo americano de educar os filhos". Nesse sentido, reputo por válida a abordagem do livro de trazer à reflexão pontos importantes, mas esquecidos, na educação dos filhos.

Parece que o "segredo" da criação dos filhos está em harmonizar o afeto e o carinho oferecidos pelos pais americanos e os limites colocados pelos pais franceses. Não dá para em nome do amor, renunciar aos limites. Nem em nome dos limites, abdicar do amor. Equilíbrio. Nada mais. É uma construção. Dia após dia. Não se trata de um software instalado, na feliz expressão utilizada pela Michelle do Vida Materna, em que, de uma hora para a outra, a pessoa já detém todos os conhecimentos e habilidades para lidar com todas as situações possíveis e inimagináveis com uma criança. O que muita gente demora a descobrir, porém, é que essa é a graça da vida: a contínua construção e aprendizado do ser humano.

O livro também aborda a questão da identidade feminina ao mencionar que a mulher francesa não se perde tanto na maternidade como a mulher americana. É saudável a mãe ter em conta que continua sendo uma mulher e um ser humano, que tem necessidades e desejos próprios. Cabe à mãe ensinar gradualmente aos filhos a respeitar esses limites. Isso é bom não só para a mulher, mas também para o marido e para os filhos.

Em uma de minhas consultas regulares a um dos meus blogs preferidos sobre maternidade, o Tudo sobre minha mãe, li uma entrevista concedida pela jornalista Poliana Abritta, mãe de trigêmeos e atual apresentadora do Fantástico. Ao ser perguntada sobre como conseguia o equilíbrio entre a maternidade e a carreira, entre outras coisas, ela diz: "Eu tive filho com 33 anos. Eu construí uma história antes deles". Certamente os filhos agregam muito à história de vida da Poliana e ela já não consegue mais se ver sem eles, mas ela não deixou tudo o que construiu antes deles para trás só porque se tornou mãe.

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