Livres da culpa de trabalhar fora?

Saiu uma matéria na Folha que dizia que as mães que trabalham fora têm filhos mais educados e independentes,  segundo um estudo elaborado pela Universidade de Harvard em maio deste ano com mais de 50 mil pessoas, entre 18 e 60 anos, coletados em 25 países de 2002 a 2012.

Segundo a matéria, as filhas das mães que trabalham fora, quando adultas, ganham mais e têm melhores cargos do que aquelas cujas mães ficaram em casa. Em relação aos filhos das mães que trabalham foram, além da diferença salarial, eles ajudam mais na tarefa doméstica e passam quase o dobro de horas em família em comparação com aquelas que tiveram mães donas de casa.

A matéria traz, ao final, uma importante ressalva. Segundo a psicóloga Maria Lúcia Rocha-Coutinho, não basta trabalhar fora para se ter automaticamente um efeito benéfico sobre os filhos. É preciso sentir-se realizada e feliz com o trabalho fora de casa.

O texto apresenta uma relação de causa e efeito entre 1) o fato de a mãe trabalhar fora 2) exige que os filhos sejam mais independentes da mãe, 3) o que os ajuda a serem futuramente mais bem-sucedidos em sua carreira, 4) entendendo-se por bem-sucedidos salários mais altos e cargos mais elevados.

Eu não li o estudo, então, gostaria apenas de pontuar algumas questões que passaram pela minha cabeça:

- pessoalmente, conheço muita gente que teve mães donas-de-casa e estão muito bem profissionalmente. Também o inverso. Conheço várias cujas mães trabalharam fora e nem por isso estão bem profissionalmente. Ou seja, não há aí um determinismo.

- o fato de os filhos das mães que trabalham fora serem mais bem-sucedidos em sua carreira tem mais a ver com as mães trabalharem fora ou com o fato dessas mães que trabalham fora colocarem seus filhos em escolinhas? Ou seja, se a mãe trabalhar fora, mas uma cuidadora como uma babá assumir esse papel dentro de casa, será que a criança será tão independente? Ou é a escola que ajuda a despertar essa independência?

- a mãe não precisa ser dona-de-casa durante toda a infância da criança nem precisa trabalhar durante toda a infância. Ou seja, acredito que seja muito positivo para a criança e para mãe se a mãe não trabalhar fora algum tempo e, depois, partir para seus projetos profissionais. Acredito que existe uma fase em que a criança é mais dependente da mãe, do nascimento aos 4-5 anos. Nesse período, talvez seja interessante que a mãe que assim desejar trabalhe menos ou mesmo nem trabalhe, assumindo com mais tranquilidade a maternidade e tendo mais condições de acompanhar e curtir a criança. Depois dessa fase, creio que a mulher sentirá naturalmente o desejo de retornar ao batente, já que não sentirá tanto a necessidade de estar presente da forma como até então estava na vida da criança.

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