Reflexão sobre as mazelas interiores

Nesses dias longe da rotina de trabalho seja como mãe seja como profissional, que são as minhas grandes responsabilidades na vida, eu não consegui viver plenamente, não consegui fazer  aquelas coisas para as quais eu não tenho tempo ordinariamente, como estudar, ir ao cinema, fazer um stand up paddle. Foi então que caiu a minha ficha de que eu não consegui não porque não esteja com o corpo são. Minha mente que não está perfeitamente sã.  

Talvez eu tenha algumas questões mal resolvidas que me impeçam de viver plenamente e de verdadeiramente enxergar como dádiva essa vida que Deus me deu. Acho que não é apenas o sentido da vida que eu ainda não experimentei, que seria algo numa dimensão mais espiritual. Talvez seja algo psicológico mesmo, que uma boa terapia possa me ajudar. Por isso, fazer terapia deve continuar sendo prioridade em minha vida.

Ao refletir sobre essas coisas (como é desgastante pensar nas nossas mazelas interiores!), comecei a suspeitar de que, na verdade, não foi a partir do casamento em que eu comecei a perder a minha identidade, a me anular. Talvez esse processo tenha começado bem antes e talvez tenha sido intensificado na dinâmica do meu casamento. E me perguntei sobre quando, afinal, comecei a me perder de mim mesma e cogitei a possibilidade de talvez nunca ter de fato me encontrado.

Lembrei-me de que já fazem muitos e muitos anos que algumas questões como insegurança e baixa autoestima estão presentes em minha vida e que nunca foram tratadas em psicoterapia. Aliás, assim como meu pai, eu tinha preconceito em relação às pessoas que faziam terapia, porque tudo o que eu queria era ser "normal". Descobri, no entanto, muitas pessoas "normais"que já passaram ou estão passando por tratamentos psicoterápicos. Só que eu, em vez de buscar ajuda psicoterápica, fui atrás de Deus... Mas acabei encontrando na minha frente a religião e o meu marido... Combinação explosiva.

A religião serviu para piorar ainda mais meu quadro. Agravou meus medos e encheu-me ainda mais de culpa. Sentia-me tão pecadora, mas tão pecadora, que não me achava digna de viver uma vida plena e me acomodava num pensamento medíocre que nunca de verdade foi o que quis para a minha vida, do tipo: "eu tenho casa, tenho um marido, tenho saúde, tenho um emprego mediano no serviço público, não preciso de mais nada na vida".

O meu marido, por outro lado, tem as questões dele, diferentes das minhas, não digo nem piores nem melhores. Diferentemente do que eu aprendi nos filmes, ele não entrou na minha vida para me livrar dos meus medos, para resolver minhas questões, para eu fazer as pazes com meu passado, ele não foi o meu salvador. É claro que, quando éramos pombinhos apaixonados, tanto eu quanto ele pensávamos que éramos os salvadores um do outro. Mas a casa caiu. E caiu feio.

De alguma forma, a maternidade revirou essas questões internas, que eu queria tanto acreditar já ter superado (pedia tanto a Deus), mas na verdade grande parte delas estavam apenas enterradas. Talvez eu nunca as supere, apenas aprenda a conviver melhor com elas.

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