Por um mundo interior com mais problemas reais

Ultimamente, estou tendo a oportunidade de ter um outro olhar sobre mim... Eu tenho percebido meus defeitos, meus pontos fracos... Isso é bom e ruim ao mesmo tempo. É bom porque é uma oportunidade de tentar melhorar e é ruim porque eu já sou uma pessoa que não se valoriza muito e tem pouco amor próprio. Então, quando penso nisso, acabo quase que encontrando justificativas para eu não ser tão querida ou tão popular...

Bem, eu sou uma pessoa muito sensível. E isso é muito ruim porque sou facilmente abalada por aspectos externos a mim e totalmente fora do meu controle. Imagine quantas situações que eu chamaria de animosas não acontecem durante o dia? Várias! Só que o tempo que eu gasto pensando nisso e o tanto que coisas tão pequenas deixam-me para baixo acabam me impedindo de viver com inteireza de espírito o aqui e agora. 

Faço psicoterapia há bem uns seis meses. Confesso que ela está longe de apaziguar meus ânimos. Ao contrário, ela me faz pensar, pensar e pensar ainda mais... Falem mal de Augusto Cury, mas confesso que ele apresenta ali bem uma grande verdade: sobre a importância do palco da mente para atuarmos no palco da vida.

Nem tudo está perdido. Algumas experiências têm me trazido a uma maior lucidez da mente. Por exemplo, viajar. Sair fisicamente daqui me ajuda a sair também dos meus problemas psicológicos: estou mais interessada em viver novas experiências do que em ficar pensando porque A ou B me olharam torto. Eu aproveito para tirar férias dos meus problemas, obrigações, responsabilidades e anseios. Eu simplesmente tenho mais facilidade de viver com intensidade o momento, eu relaxo, eu durmo melhor, eu sinto mais paz, fico mais confiante e segura, meu humor melhora, sinto até que estou mais próxima de mim mesma em termos de identidade. E essa nova postura diante da vida inexoravelmente se reflete na forma como eu educo minha filha, como eu me relaciono com as pessoas, como eu lido com os problemas. Faz toda a diferença do mundo! E é dessa forma que eu gostaria de me sentir a maior parte das vezes.

Existe um poema atribuído ao poeta argentino Borges, que tem um verso que fala que, se ele pudesse voltar atrás, pois já tinha 85 anos, ele teria tido mais problemas reais do que fictícios. E é exatamente assim como me sinto!

Se eu pudesse novamente viver a minha vida, 
na próxima trataria de cometer mais erros. 
Não tentaria ser tão perfeito, 
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido. 
Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério. 
Seria menos higiênico. Correria mais riscos, 
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, 
subiria mais montanhas, nadaria mais rios. 
Iria a mais lugares onde nunca fui, 
tomaria mais sorvetes e menos lentilha, 
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários. 
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata 
e profundamente cada minuto de sua vida; 
claro que tive momentos de alegria. 
Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente 
de ter bons momentos. 
Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos; 
não percam o agora. 
Eu era um daqueles que nunca ia 
a parte alguma sem um termômetro, 
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas e, 
se voltasse a viver, viajaria mais leve. 
Se eu pudesse voltar a viver, 
começaria a andar descalço no começo da primavera 
e continuaria assim até o fim do outono. 
Daria mais voltas na minha rua, 
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, 
se tivesse outra vez uma vida pela frente. 
Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo

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