A mulher que estou me tornando

Recentemente, convidei minha irmã, que é mais velha que eu, para ir lá em casa, aproveitando que minha mãe estava lá também. Foi muito agradável a visita dela, a minha filha gosta muito da tia, apesar de pouco a ver. Mas, no final, eu estava me sentindo mal, desconfortável, chateada, triste e não sabia bem o que era...

Comecei, então, a refletir sobre o que, afinal, estava me incomodando tanto. E constatei que um antigo sentimento tinha vindo à tona: a de que eu não era uma boa mãe, apesar dos meus esforços diários para sê-la. E por que esse sentimento ressurgiu? Por um conjunto de fatores, que explico a seguir.

Eu havia tido, dias antes, uma discussão com a esposa do meu pai e, como sempre, gosto de comentar esse tipo de coisa com as pessoas mais próximas, pois sabia que eu também estava errada. Acho que é meio aquele negócio de confessar os pecados uns aos outros. Após a minha irmã ouvir a história, ela veio então com aquele jeito típico dela de falar como se fosse dar um veredicto final.

Depois, num contexto de muitas brincadeiras com a tia, minha filha fala algo que nunca havia falado antes, pelo menos, não para mim: "mamãe não cuida de mim não". A minha irmã fez, na hora, uma cara de espanto, mas na seqüência ela disse que criança muitas vezes fala abobrinhas. Minha mãe, por outro lado, não ouviu ou fez que não ouviu.

Ouvir aquilo e, ainda por cima, na frente da minha irmã e da minha mãe, foi terrível. Eu fiquei constrangida, embaraçada, mas sobretudo triste. Não sei onde foi parar minha racionalidade, não queria saber se criança de dois anos e meio fala às vezes bobagem. Passei, então, a enumerar as coisas que eram as provas de que eu cuidava dela: dava banho, comida, colocava para dormir, levava na escolinha, no parquinho, contava histórias antes de dormir... Agora percebo o quanto estou insegura e às vezes até imatura para ter uma reação dessa.

Passados alguns minutos, minha mãe, mestre em falar o que não deve e incitada por alguma coisa que observou ali em casa, disse, referindo-se à minha irmã: "a Ana sempre teve instinto maternal, desde pequena". Realmente, eu nunca tive muito jeito com crianças, mas agora que sou mãe, estou descobrindo como crianças são seres maravilhosos, como nos fazem esquecer desse mundo tenebroso e como nós temos poder para fazer da vida delas algo ruim, bom ou muito bom. Fiquei me sentindo muito mal com tudo aquilo pois a minha mãe não reconhece o quanto já aprendi e o quanto me dedico à minha filha; ela prefere acreditar que as pessoas são estáticas.

Ainda que minha mãe continue enxergando em mim aquela menina imatura, dependente, sem jeito para ser mãe e pouco vaidosa, eu estou vendo nascer em mim um outro tipo de pessoa, uma mulher madura e independente, mãe zelosa e vaidosa na medida certa.

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