Preciso reclamar
Apesar de reclamar ser uma prática antiprodutiva, eu preciso desabafar. Já que não quero contaminar os ouvidos de ninguém com as minhas queixas, reservo-me o direito de usar esse espaço para isso, desimpedidamente.
Eu estou sentindo falta de me relacionar com mais pessoas, além da minha filha e meu marido. Gostaria de ter mais amigos e de me sentir mais querida e amada. Estou carente, mas já não coloco a culpa no meu marido, apesar de ele estar realmente trabalhando muito. Resumindo: existe uma lacuna emocional-afetiva que me atrapalha a perseguir objetivos mais altos.
Não temos casais amigos, temos amigos individuais. E uma grande amiga parece estar se afastando e não sei bem o motivo. Ela parece ter criado um rótulo a meu respeito de forma que, de uns tempos para cá, tudo está sendo interpretado sob esse viés. Como diria Dory, contine a nadar, continue a nadar...
Tenho vivido muito solitariamente a maternidade. E isso faz com que eu vivencie tanto os aspectos positivos quanto os negativos de forma muito intensa. Preocupo-me demais com coisas pequenas e torno coisas simples mais complexas do que deveriam. Resumindo: eu dispendo muita ENERGIA com preocupações tolas relacionadas à maternidade.
Estou com uma baixa auto-confiança. Sendo casada com um médico, moro em um lugar com pessoas de poder aquisitivo elevado, que geralmente têm profissões que as posicionam socialmente e convivo com outras mães da escolinha da minha filha que têm remunerações também elevadas. Sinto-me muitíssimo mal com isso.
Ele é médico, ele coloca o dinheiro na casa, nos dá muito, muito conforto, ele sai cedo e não precisa se preocupar com nada em casa nem com a filha. É como se a casa se limpasse sozinha e a filha se criasse sozinha... Dedicação e foco total ao trabalho que o dá status social enquanto eu fico em casa cuidando da burocracia e das atividades chatas que ninguém dá valor. Isso é desigualdade de gênero. Sei que estou onde estou, contudo, por conta de decisões erradas do passado, que agora tento consertar.
O fato de eu estar de licença sem remuneração mesmo que por um motivo nobre e procurando realmente fazer a minha parte - dedicar-me a uma faculdade de Direito -, não melhora muito as coisas. As respostas são sociológicas. Já dizia meu professor de Direito Constitucional: numa sociedade pautada pela ética do trabalho, em que se trabalha para sobreviver, não sobra muito espaço para quem não é economicamente ativo.
Claro que eu acumulo uma série de tarefas e atividades domésticas sem fim, que em nossa sociedade não são dignas de qualquer reconhecimento. Mesmo tendo diarista 2 vezes na semana, estou à frente da casa e da criação da minha filha, o que envolve fazer compras no supermercado, levá-la e buscá-la na escola todo santo dia, providenciar o material constantemente pedido pela escola, levá-la para brincar no parquinho, providenciar jantar/lanche diariamente, colocá-la para dormir, dar dois banhos por dia, escovar os dentes, lavar as roupas dela e estender no varal, organizar a louça suja e limpa, organizar os brinquedos, que parecem ter vida própria, recolher o cocô do gato, pagar todas as contas....
Entre todas as atividades domésticas, talvez a que mais me irrite é organizar a bagunça do meu marido. Não adianta pedir para guardar a comida de volta na geladeira, jogar o pote de iogurte no lixo ou colocar a roupa suja no cesto entre outras atividades. Aquelas coisas mimosas que recém-casadas fazem para "mudar o comportamento do companheiro" já não fazem parte da lista, brigar também não adianta...
Nada se compara, entretanto, aos enfrentamentos nas lidas diárias de cuidados e educação da minha filha. Aqueles pedidos que fazemos repetidamente e que não atendidos costumam levar minha paciência ao limite. Os momentos de teimosia, birra, noites sem dormir e os comportamentos mal educados em público, que racham a minha cara de vergonha. A enrolação para comer, para se vestir, para sair da cama, entrar no banheiro e tomar banho... aquela lista interminável de atividades rotineiras e diárias executadas sem qualquer contribuição do meu marido e que não fazem de mim uma mãe necessariamente melhor. Isso vai depender da forma como eu encaro a coisa. Às vezes, pode ser um momento de diversão, aprendizado mútuo, envolvimento e conhecimento do filho que temos. Outras, momentos que nos tiram do sério e nos levam a ficar num estado de nervos. Em relação a isso, o livro "Soluções para uma disciplina sem choro", de Elizabeth Pantley, foi um bálsamo sem igual. Por outro lado, nada pior do que conversar sobre dificuldades com filhos com uma pessoa que não tem filhos.
Na verdade, sinto que tenho um enorme privilégio em poder acompanhar de perto o desenvolvimento e crescimento da minha filha, participando e me envolvendo em sua vida, com muitas possibilidades de orientá-la e guiá-la, sem ter de estar dividida com um trabalho remunerado de que não goste, como era o caso do trabalho do qual me licenciei. No entanto, por vezes, a maternidade pode ser um fardo muito pesado e compartilhá-lo com o pai, de uma maneira mais equilibrada, não importando se ele é mecânico ou astronauta, traz um alívio e conforto emocional muito grande à mulher, até para ela se sentir fortalecida para atravessar momentos difíceis. Aqui em casa, não me sinto assim. Ao contrário, o meu marido é intolerante a qualquer problema doméstico, afinal ele tem problemas "mais importantes" com que se preocupar. Ele tem que ganhar dinheiro, destacar-se no mercado, não pode perder tempo com problemas familiares. A lição que tenho aprendido é: se as coisas não estão bem, finja que estão, caso contrário, ficarão piores.
Na faculdade, convivo com alunos em sua maioria com uma base educacional ruim. Eu não tenho preconceito, mas fica claro que o nível da aula fica muito aquém daquilo que o próprio professor tem capacidade de passar aos alunos. Não me sinto muito desafiada ali muito menos inspirada. Senti-me uma idiota quando, querendo entender o motivo de eu ter errado uma questão de prova, o próprio professor disse: doutora, para quê você quer saber isso? Você já está com 10 (valia 12). Eu queria aprender, não queria tirar 10 na prova somente...
Eu tirei 10 a minha vida inteira e não me serviu de muita coisa. Quer dizer, rendeu-me aprovação em dois concursos públicos de nível médio, para os quais eu não me preparei. Um feito aos 21 anos. Mas hoje estou com 30 anos e, de lá para cá, nada mudou profissionalmente.
Parei de trabalhar e estou me dando uma segunda chance de recomeçar. Realmente tenho muito conforto, um escritório lindo, montado só para mim, um carro maravilhoso, em que posso transportar minha filha com todo conforto e segurança, almoço em bons restaurantes semanalmente, não me faltam recursos para comprar roupas ou pagar médicos, tenho tempo para me cuidar. Além disso, tenho saúde e uma filha linda e saudável. Então, o melhor que tenho a fazer nesse momento é, como diz Seeiti Arata, ressignificar minha história, começar a ter gratidão, começar a viver no presente, afastando preocupações e ansiedade, e parar com o péssimo hábito de reclamar. #prontofalei
Eu estou sentindo falta de me relacionar com mais pessoas, além da minha filha e meu marido. Gostaria de ter mais amigos e de me sentir mais querida e amada. Estou carente, mas já não coloco a culpa no meu marido, apesar de ele estar realmente trabalhando muito. Resumindo: existe uma lacuna emocional-afetiva que me atrapalha a perseguir objetivos mais altos.
Tenho vivido muito solitariamente a maternidade. E isso faz com que eu vivencie tanto os aspectos positivos quanto os negativos de forma muito intensa. Preocupo-me demais com coisas pequenas e torno coisas simples mais complexas do que deveriam. Resumindo: eu dispendo muita ENERGIA com preocupações tolas relacionadas à maternidade.
Estou com uma baixa auto-confiança. Sendo casada com um médico, moro em um lugar com pessoas de poder aquisitivo elevado, que geralmente têm profissões que as posicionam socialmente e convivo com outras mães da escolinha da minha filha que têm remunerações também elevadas. Sinto-me muitíssimo mal com isso.
Ele é médico, ele coloca o dinheiro na casa, nos dá muito, muito conforto, ele sai cedo e não precisa se preocupar com nada em casa nem com a filha. É como se a casa se limpasse sozinha e a filha se criasse sozinha... Dedicação e foco total ao trabalho que o dá status social enquanto eu fico em casa cuidando da burocracia e das atividades chatas que ninguém dá valor. Isso é desigualdade de gênero. Sei que estou onde estou, contudo, por conta de decisões erradas do passado, que agora tento consertar.
O fato de eu estar de licença sem remuneração mesmo que por um motivo nobre e procurando realmente fazer a minha parte - dedicar-me a uma faculdade de Direito -, não melhora muito as coisas. As respostas são sociológicas. Já dizia meu professor de Direito Constitucional: numa sociedade pautada pela ética do trabalho, em que se trabalha para sobreviver, não sobra muito espaço para quem não é economicamente ativo.
Claro que eu acumulo uma série de tarefas e atividades domésticas sem fim, que em nossa sociedade não são dignas de qualquer reconhecimento. Mesmo tendo diarista 2 vezes na semana, estou à frente da casa e da criação da minha filha, o que envolve fazer compras no supermercado, levá-la e buscá-la na escola todo santo dia, providenciar o material constantemente pedido pela escola, levá-la para brincar no parquinho, providenciar jantar/lanche diariamente, colocá-la para dormir, dar dois banhos por dia, escovar os dentes, lavar as roupas dela e estender no varal, organizar a louça suja e limpa, organizar os brinquedos, que parecem ter vida própria, recolher o cocô do gato, pagar todas as contas....
Entre todas as atividades domésticas, talvez a que mais me irrite é organizar a bagunça do meu marido. Não adianta pedir para guardar a comida de volta na geladeira, jogar o pote de iogurte no lixo ou colocar a roupa suja no cesto entre outras atividades. Aquelas coisas mimosas que recém-casadas fazem para "mudar o comportamento do companheiro" já não fazem parte da lista, brigar também não adianta...
Nada se compara, entretanto, aos enfrentamentos nas lidas diárias de cuidados e educação da minha filha. Aqueles pedidos que fazemos repetidamente e que não atendidos costumam levar minha paciência ao limite. Os momentos de teimosia, birra, noites sem dormir e os comportamentos mal educados em público, que racham a minha cara de vergonha. A enrolação para comer, para se vestir, para sair da cama, entrar no banheiro e tomar banho... aquela lista interminável de atividades rotineiras e diárias executadas sem qualquer contribuição do meu marido e que não fazem de mim uma mãe necessariamente melhor. Isso vai depender da forma como eu encaro a coisa. Às vezes, pode ser um momento de diversão, aprendizado mútuo, envolvimento e conhecimento do filho que temos. Outras, momentos que nos tiram do sério e nos levam a ficar num estado de nervos. Em relação a isso, o livro "Soluções para uma disciplina sem choro", de Elizabeth Pantley, foi um bálsamo sem igual. Por outro lado, nada pior do que conversar sobre dificuldades com filhos com uma pessoa que não tem filhos.
Na verdade, sinto que tenho um enorme privilégio em poder acompanhar de perto o desenvolvimento e crescimento da minha filha, participando e me envolvendo em sua vida, com muitas possibilidades de orientá-la e guiá-la, sem ter de estar dividida com um trabalho remunerado de que não goste, como era o caso do trabalho do qual me licenciei. No entanto, por vezes, a maternidade pode ser um fardo muito pesado e compartilhá-lo com o pai, de uma maneira mais equilibrada, não importando se ele é mecânico ou astronauta, traz um alívio e conforto emocional muito grande à mulher, até para ela se sentir fortalecida para atravessar momentos difíceis. Aqui em casa, não me sinto assim. Ao contrário, o meu marido é intolerante a qualquer problema doméstico, afinal ele tem problemas "mais importantes" com que se preocupar. Ele tem que ganhar dinheiro, destacar-se no mercado, não pode perder tempo com problemas familiares. A lição que tenho aprendido é: se as coisas não estão bem, finja que estão, caso contrário, ficarão piores.
Na faculdade, convivo com alunos em sua maioria com uma base educacional ruim. Eu não tenho preconceito, mas fica claro que o nível da aula fica muito aquém daquilo que o próprio professor tem capacidade de passar aos alunos. Não me sinto muito desafiada ali muito menos inspirada. Senti-me uma idiota quando, querendo entender o motivo de eu ter errado uma questão de prova, o próprio professor disse: doutora, para quê você quer saber isso? Você já está com 10 (valia 12). Eu queria aprender, não queria tirar 10 na prova somente...
Eu tirei 10 a minha vida inteira e não me serviu de muita coisa. Quer dizer, rendeu-me aprovação em dois concursos públicos de nível médio, para os quais eu não me preparei. Um feito aos 21 anos. Mas hoje estou com 30 anos e, de lá para cá, nada mudou profissionalmente.
Parei de trabalhar e estou me dando uma segunda chance de recomeçar. Realmente tenho muito conforto, um escritório lindo, montado só para mim, um carro maravilhoso, em que posso transportar minha filha com todo conforto e segurança, almoço em bons restaurantes semanalmente, não me faltam recursos para comprar roupas ou pagar médicos, tenho tempo para me cuidar. Além disso, tenho saúde e uma filha linda e saudável. Então, o melhor que tenho a fazer nesse momento é, como diz Seeiti Arata, ressignificar minha história, começar a ter gratidão, começar a viver no presente, afastando preocupações e ansiedade, e parar com o péssimo hábito de reclamar. #prontofalei
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